Mães de soldados russos desafiam Putin

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Moscou (AFP) – Seus vídeos estão inundando a mídia social russa – mães e esposas de soldados mobilizados para lutar na Ucrânia, exigindo urgentemente que os militares cumpram as promessas feitas pelo presidente Vladimir Putin.

A raiva e a preocupação cresceram em toda a Rússia desde setembro, quando o Kremlin anunciou que centenas de milhares de homens bem treinados e bem equipados seriam recrutados e enviados ao campo de batalha para reforçar a difícil campanha de Moscou na Ucrânia.

Mas o caos se seguiu, com relatos generalizados de homens isentos – idosos ou enfermos – sendo despachados para o front ou recrutas morrendo depois de quase não receberem treinamento, forçando o Kremlin a admitir “erros”.

Em um sinal de que Putin leva a sério o mal-estar crescente, ele deve se encontrar na sexta-feira com um grupo de mães e esposas de militares pela primeira vez desde que ordenou a entrada das forças russas na Ucrânia, nove meses atrás.

Mas alguns parentes já descartaram a reunião como cuidadosamente coreografada e que não oferecerá uma plataforma para discussão franca.

“O presidente se reunirá com algumas mães tiradas de seu bolso, que farão as perguntas certas e lhe agradecerão”, disse Olga Tsukanova, uma mãe ativista.

“Como sempre.”

Seu filho de 20 anos está cumprindo o serviço militar e ela quer garantir que ele não seja enviado para a Ucrânia.

Tsukanova viajou 900 quilômetros (560 milhas) da cidade de Samara, no rio Volga, na esperança de ser visto no Kremlin.

memórias amargas

“Não estou sozinho. Convide-nos, Vladimir Vladimirovich, responda às nossas perguntas!” ela disse, referindo-se ao presidente por seu patronímico.

A raiva pelo destino dos homens mobilizados, que corre o risco de degenerar em verdadeiro descontentamento, colocou o Kremlin em uma posição desconfortável, disseram analistas.

Embora as autoridades tenham desencadeado uma repressão sem precedentes contra a dissidência política enquanto as tropas lutam na Ucrânia, a palavra das mães é sagrada na Rússia.

Prendê-los não é uma opção.

Para Putin, a visão de parentes furiosos pode trazer de volta lembranças difíceis do início de seu governo, mais de duas décadas atrás.

Em agosto de 2000, o líder russo foi criticado por responder muito lentamente quando o submarino Kursk afundou, matando todos os 118 tripulantes a bordo.

Duas guerras na Chechênia levaram ao surgimento do movimento das mães na Rússia, que se tornou um espinho para o Kremlin.

Mas desta vez o clima é diferente, sem meios de comunicação independentes no país e uma proibição de fato de críticas públicas à ofensiva de Putin.

Isso significa que houve poucos questionamentos públicos sobre a operação na Ucrânia. Mas na Rússia alguns estão fazendo perguntas sobre as condições em que os parentes são enviados para lutar.

‘Mantenha o poder sob controle’

A condição de mães e esposas como parentes de homens mobilizados servindo ao país lhes dá uma forma de proteção, ao invés de serem consideradas oponentes comuns.

“Existe um sentimento subconsciente de que as mulheres têm esse direito”, de responsabilizar o poder, disse o sociólogo Alexei Levinson, do independente Levada Center.

“Mas esta não é uma mulher para o movimento pela paz”, alertou.

“Eles querem que o Estado cumpra sua responsabilidade como ‘pai coletivo’ para com os mobilizados.”

Por enquanto, o movimento das mães de soldados é descoordenado e díspar, consistindo principalmente de parentes preocupados postando vídeos nas redes sociais, onde alguns grupos informais se formaram.

Foi assim que Tsukanova, que tem ligações com a controversa figura da oposição Svetlana Peunova – acusada na Rússia de espalhar teorias de conspiração política – se envolveu no movimento das mães.

Num clima de desconfiança que não se via desde a era soviética, muitas mulheres temem que reclamar da ofensiva possa significar problemas e se abstêm de falar com a imprensa estrangeira.

“Enviamos cartas às autoridades”, disse uma mulher anonimamente à AFP.

“Não são os jornalistas que vão tirar os nossos homens das trincheiras e não queremos prejudicá-los ainda mais.”

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